
"Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Apenas eu, me contentava com um gole seco de saliva e angústia, tentando observar Escobar, o morto e Bentinho, insípido Casmurro. Em detalhes, sua reação. Me sentia presa, aonde todos os meus movimentos, de uma virada de olhos à uma dobrada de pernas, fossem avaliados e criticados, como se eu transparecesse um perigo.
Amparava Sancha, já que esta, a viúva, tinha tido uma perda grande. Grande, me refiro a Escobar. Bom este homem que me alegrou em momentos sofríveis, me confortou em dias secos e frios, me fez sentir livre e mulher, coisa que Bentinho não conseguia. Todo o seu calor era levado para mim, e numa explosão me sentia melhor com ele, motivo inseguro de Dom Casmurro.
Neste momento, recebi uma olhada fixa, que leu meus pensamentos fragmentados e tirou sua própria conclusão, me fuzilando com sua permanência de olhos. Foi o bastante para me escorrer uma lágrima, que desceu sobre minhas olheiras cansadas das noites sem sonos e sonhos. Uma atitude involuntária de limpá-las como se fossem canivetes a cortar-me os punhos. Bentinho mostrou uma expressão dolorosa, desceu os ombros e virou-se como se o que eu merecesse eram apenas suas costas, grandes e lisas, como um grande pedaço de madeira, duro para que não o quebre.
Eu, a mercê da situação, forte suspirei, e logo percebi que tudo que começou, acabára por um ciúmes incontrolável, e complexo."
- Adaptação de Dom Casmurro - Capítulo CXXIII: Olhos de Ressaca
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